Primeiras vezes

E aí, Alices

Boa segunda-feira (como se essas duas palavras combinassem). Hoje vamos caminhar pelos corredores das primeiras vezes, esse momento gostoso e desesperador.

E temos uma novidade: agora você pode deixar seu comentário na página da newsletter! Vou amar demais receber os feedbacks. Pra acessar a página, clique aqui.

inéditos: Telefonema

/

Preciso ligar pra minha mãe, eu disse automaticamente quando olhei pro relógio e constatei a hora. Já passava das 23h e eu não avisei onde estava. Eu sei, eu tenho quase 30 anos, mas ela simplesmente não dorme enquanto não dou sinal de que não fui assassinada ou espancada por ser sapatão, embora eu mesma jamais tenha me assumido publicamente, minha mãe sempre soube. Ela arregalou levemente os olhos azuis e eu senti minhas bochechas adotarem um tom de vermelho ainda não inventado ou patenteado pela Pantone. Eu pensei em tentar explicar as razões, justificar meu apego emocional com minha família, citar algumas teorias da minha psicóloga, cheguei até a abrir a boca, mas decidi fechar e sorrir desconcertada. Sempre achei a palavra desconcertada muito engraçada, ela me veio à mente e eu encarei a samambaia pendendo da parede que precisava urgentemente de água. Desconcertada, como se um concerto musical tivesse sido adiado, cancelado ou todos os instrumentos tivessem decidido fazer greve. A língua portuguesa é incrivelmente doida, mas com certeza quem parecia louca era eu, sorrindo idiota pra uma samambaia zumbi enquanto a moça que me convidou pra subir no seu apartamento esperava que eu desse qualquer sinal de que sim, eu queria. Queria muito. Ah, como queria.

Arrisquei espiar sua cara, agora eu não estava mais vermelha, mas roxa. Pensei em levantar correndo, agarrar a samambaia numa missão de resgate e depois correr pro aconchego do meu apartamento. Faz muito tempo que eu gostaria de vivenciar tudo isso que estava prestes a ocorrer, idealizei cada segundo, como ela se aproximaria de mim, como eu ia estar tremendo e mal conseguiria usar minha boca pra sentir se existia aquele arrepio inevitável que nos impele aos lençóis – ou azulejos, ou chãos, ou mesas, ou paredes.

É claro que eu só sabia disso tudo na teoria, de tanto ouvir histórias das minhas amigas que mal conseguiam segurar o fogo procedente dos portões do inferno que dominava aquelas calcinhas e cuecas. Eu mesma jamais tinha passado da idealização. Eu demorei tanto tempo apenas pra olhar pra uma mulher e admitir que queria não só ser como ela, mas poderia desejar senti-la, de todas as formas possíveis. Afoguei todas as minhas vontades nos meus banhos quentes, longos e deliciosos. Por algum tempo funcionou, até que não funcionou mais.

Sua boca me encarava sedenta, mesmo com aquele meu jeito bobo. Você tá bem? Sim, tudo certo, eu cuspi rápida a resposta enquanto ela ia até a cozinha buscar um chá, que aceitei de bom grado pois qualquer coisa que pudesse postergar a minha vergonha de não saber direito o que fazia seria bem-vinda.

Me levantei e caminhei pela sala mal iluminada dela, tentando ler lombadas de livros e percebendo que a penumbra não me permitia nem andar de forma segura pelo cômodo, muito menos ler nada. Era a luz perfeita pra aquele momento. Eu é que não era perfeita. Minhas referências de sexo lésbico eram os pornôs problemáticos que cruzaram minha adolescência e que eu sabia, depois de algum estudo, serem tão mentirosos quanto as cenas de sexo em praticamente qualquer filme em que mulheres ficavam juntas. A minha melhor referência eram as transas de Shane em L Word. Isso ia ser desastroso.

Cheguei a coletar minha jaqueta de couro falso do sofá e caminhei até a porta, mas decidi ir até a cozinha. Ela estava escolhendo atentamente um chá no meio de pelo menos 100 opções. Seus dedos tremiam enquanto ela rasgava o pacote do mix de frutas vermelhas e ela quase se queimou com a água que fumegava na chaleira. E não me viu entrar sorrateira e observar seus passos nervosos pra chegar até mim.

Nós estávamos conversando há algum tempo, não o suficiente pra saber quantos irmãos tínhamos ou se procurávamos algo casual ou mais sério. Mas eu já sabia do tique que ela tinha de colocar o cabelo pra trás toda vez que seu coração balançava e ela sabia que eu podia ser impulsiva e que por causa dessa lua em sagitário eu havia beijado a primeira mulher da minha vida, aos 25 anos, assim, de supetão. Pigarreei pra ela perceber que eu estava ali, ela se virou nervosa e, logo depois de se acalmar, me encarou por uns segundos um pouco antes de colocar o cabelo atrás da orelha. O balanço do coração dela estremeceu minhas pernas e eu cambaleei rapidamente até sua boca, dali pro pescoço, do pescoço pros mamilos e, quando vi, estávamos as duas, dia raiando, comendo um macarrão requentado, sentadas no chão da cozinha. Naquele dia testamos ao menos três superfícies – verticais e horizontais. Ao sair da casa dela, manhã clara, passarinhos cantando, beijei sua boca e agradeci por me receber. Liguei pra minha mãe assim que saí porta afora. Bom dia, mãe. Sim, tudo maravilhoso. To viva. Mais que viva.

fofoquinha: fui dessas que se descobriu “tarde”, aos 23 anos. apesar de ter passado longe do que considero, hoje, um sexo espetacular, transar com uma mulher pela primeira vez foi libertador e incrível. contudo, essa história nada se parece com a minha. e a sua primeira vez, como foi?

intertexto:

Reply

or to participate.