Caindo na toca da Coelho

Boa tarde, Alices! Esta newsletter nasce oficialmente hoje e começa com um agradecimento a vocês, as primeiras pessoas a acreditarem que eu tenho a capacidade de manter um conteúdo literário semanal (insira aqui risadas nervosas de uma mãe). De verdade, sou grata a vocês que, de uma maneira ou outra, impulsionam meu trabalho.

O que vocês podem esperar receber por aqui? Um texto semanal, uma novidade sobre lançamentos de livros, de cursos, de encontros presenciais e online, talvez desabafos sobre a vida, vídeos, áudios, uma receita nova? Tudo isso e talvez o que mais me der na telha (para fotos do Vevel, checar meu instagram). Contudo, alguns quadros já estão confirmados por aqui, são eles:

inéditos: textos não publicados, sejam eles de publicações futuras, engavetados ou esquecidos. poemas, crônicas, cartas, contos.

spoilers: trechos incompletos de romances em processo. atualmente, estou trabalhando em Ressaca.

intertexto: músicas, séries, filmes, livros, peças, pinturas que se relacionem, de alguma forma, com a newsletter do dia.

fofoquinha: todo texto tem uma história por trás, mas algumas são mais interessantes que outras. nessa seção, conto minha inspiração para a criação da obra.

Feedbacks e dedos de prosa são sempre bem vindos! Me chamem no instagram ou me mandem um e-mail contando o que acharam na primeira news, se quiserem. Espero que vocês curtam esse contato mais direto semanal (quem sabe até diário?) e que espalhem por aí.

Um beijo

Inéditos:

Djavan

Toda mulher é uma esfinge: “decifra-me e te devoro”. Aqui a conjunção é aditiva e não alternativa. A única alternativa possível era decifrar ou ir embora e eu queria ser devorada por aqueles olhos. Ser engolida pelas conversas até tarde, regadas a vinho na promoção e que, de tão molhadas, fariam florescer flores raras que nós nem sabíamos não estarem extintas.

Ela se movia de um jeito totalmente despretensioso e falava alto, gesticulava muito, gargalhava e derrubava coisas na mesa, talvez fosse o vinho que muito se parecia com suco de uva e álcool de cozinha, mas algo me fazia crer que ela estaria limpando a roupa suja de comida mesmo se conseguisse fazer o quatro. Contudo, neste momento, talvez sofresse um pouco pra manter o equilíbrio. Eu já não enxergava nada direito e provavelmente a culpa não era só das minhas lentes de contato com prazo de validade expirado, no fundo da minha taça, uma última gota gritava pra adentrar minha garganta. Engoli em seco enquanto ríamos das comidas derrubadas, das cambalhotas que o cachorro dava pedindo atenção daquelas duas que só sabiam mudar o foco do olhar dos olhos pros lábios.

Sempre ouvi dizer que, se alguém encara muito sua boca, quer te beijar. Eu, como boa virginiana, comecei a achar que meus dentes estavam sujos de doritos da janta mexicana fajuta que improvisamos. Ela encarava minha boca como se o que eu falasse fosse muito interessante e, apesar do vinho safra ruim, como diria Gadú, acho que um papo sobre trabalho não poderia ser tão incrível assim. Comecei a retribuir as encaradas, discretamente, ela me tocava de cinco em cinco minutos, despretensiosamente. Não havíamos nos beijado, só trocado alguns abraços muito longos e apertados das outras vezes que nos encontramos. Sempre a observei de longe, os cabelos volumosos e curtos me chamavam a atenção, mas o que me fazia tremer as pernas era o sorriso. Um dia, o sorriso me deu bola e eu agarrei com força a oportunidade de sorrir de volta.

Agora, cara a cara, os olhos castanhos vidrados nos meus, eu interrompi a fala pra apreciar aquele ultimato silencioso que ela me dava, e aí encontrei naquela boca tantos sabores que nem soube distinguir de quais eu gostava mais. A música de fundo era Djavan e eu sorri no meio do beijo enquanto percebia que desvendei o coração de esfinge.

intertexto de hoje:

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